Mostrando postagens com marcador Livro Educação da Mãe Mirra Alfassa. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Livro Educação da Mãe Mirra Alfassa. Mostrar todas as postagens

domingo, 9 de agosto de 2009

EDUCAÇÃO - UM GUIA PARA O CONHECIMENTO E O DESENVOLVIMENTO INTEGRAL DE NOSSO SER

a ciência de viver

Uma vida sem objetivo é uma vida sem alegria.

Tenham todos um objetivo. Mas não se esqueçam de que da qualidade de seu objetivo vai depender a qualidade de sua vida.

Que seu objetivo seja elevado e vasto, generoso e desinteressado; assim, sua vida se tornará preciosa para vocês mesmos e para os outros.

No entanto, qualquer que seja o ideal a que vocês se proponham atingir, vocês só poderão realizá-lo perfeitamente se realizarem a perfeição em vocês mesmos.

O primeiro passo neste trabalho de auto-aperfeiçoamento é tornar-se consciente de si, das diferentes partes de seu ser e de suas respectivas atividades. É preciso aprender a distinguir estas diferentes partes uma da outra, para que vocês se dêem conta claramente da origem dos movimentos que se produzem em vocês, dos impulsos, das reações, das veleidades diversas que os impelem a agir. É um estudo assíduo que exige muita perseverança e sinceridade; pois a natureza do homem, especialmente sua natureza mental, tem a tendência espontânea de dar uma explicação favorável a tudo o que nós pensamos, sentimos, dizemos e fazemos. Somente observando estes movimentos com muito cuidado, fazendo-os passar, por assim dizer, diante do tribunal de nosso ideal mais alto, com uma vontade sincera de nos submetermos a seu julgamento, é que podemos esperar educar em nós um discernimento que não se engana de modo algum. Pois se quisermos realmente progredir e adquirir a capacidade de conhecer a verdade de nosso ser, isto é, aquilo para que somos realmente feitos, o que podemos chamar nossa missão sobre a terra, precisamos, muito regularmente e muito constantemente, rejeitar de nós ou abolir em nós o que está em contradição com a verdade de nossa existência, o que se opõe a ela. É assim que pouco a pouco todas as partes, todos os elementos de nosso ser podem ser organizados em um todo homogêneo em torno de nosso centro psíquico. Este trabalho de unificação exige muito tempo para ser levado a algum grau de perfeição; assim, para realizá-lo, devemos armar-nos de paciência e perseverança, determinados a prolongar nossa vida tanto quanto for necessário para termos êxito em nosso empreendimento.

Ao mesmo tempo em que vocês prosseguem com este trabalho de purificação e unificação, é preciso dar bastante atenção ao aperfeiçoamento da pane exterior e instrumental de seu ser. Quando a verdade superior se manifestar, será preciso que ele encontre em vocês um mental rico e flexível o suficiente para ser capaz de conferir à idéia que quer expressar-se a forma de pensamento que conserve sua força e sua clareza. Este pensamento, por sua vez, quando quiser revestir-se de palavras, deve encontrar em vocês um poder de expressão suficiente para que as palavras revelem o pensamento e não o deformem de modo algum. E esta fórmula da qual vocês terão revestido a verdade deve ser manifestada em todos os seus sentimentos, todas as suas vontades, todas as suas ações, todos os movimentos de seu ser. Finalmente, estes próprios movimentos devem, por um esforço constante, atingir sua mais alta perfeição.


Tudo isto pode ser realizado com a ajuda de uma quádrupla disciplina cujas grandes linhas vão ser dadas aqui. Estes quatro aspectos da disciplina não excluem um ao outro, e podem ser seguidos ao mesmo tempo; de fato, é preferível que seja assim. O ponto de partida será o que pode ser chamado a disciplina psíquica. Damos o nome psíquico ao centro psicológico de nosso ser, a sede, em nós, da mais alta verdade de nossa existência, aquilo que tem o poder de conhecer e pôr em movimento esta verdade. É, portanto de importância capital tornar-se consciente de sua presença era nós, concentrarmo-nos nesta presença, até que ela seja um fato vivo para nós e possamos identificar-nos com ela.

Através do tempo e do espaço muitos métodos foram preconizados para obter esta percepção e finalmente realizar esta identificação. Certos métodos são psicológicos, outros religiosos, outros mesmo mecânicos. Na realidade, cada um deve encontrar o que melhor lhe convém; e se sua aspiração for ardente e tenaz, se sua vontade for persistente e dinâmica, é certo encontrar, de uma maneira ou de outra, exteriormente pela leitura ou pelo ensinamento, interiormente pela concentração, meditação, revelação e experiência, a ajuda de que se precisa para atingir seu objetivo. Só uma coisa é absolutamente indispensável : a vontade de descobrir e realizar. É preciso que esta descoberta e esta realização sejam a preocupação primordial do ser, a pérola de alto preço que se adquire custe o que custar. O que quer que vocês façam, sejam quais forem as suas ocupações e suas atividades, a vontade de descobrir a verdade de seu ser e de se unir a ela deve estar sempre viva e presente atrás de tudo o que vocês fazem, tudo o que vocês experienciam, tudo o que vocês pensam.


Para completar este movimento de descoberta interior, é bom não negligenciar o desenvolvimento mental. Pois o instrumento mental pode ser tanto uma grande ajuda quanto um obstáculo muito grande. A mentalidade humana, em seu estado natural, é sempre limitada em sua visão, estreita em sua compreensão, rígida em suas concepções. É preciso, portanto fazer um esforço constante para alargá-la, torná-la flexível e aprofundá-la. Assim, é muito necessário considerar cada coisa de tantos pontos de vista quanto possível. Neste sentido, existe um exercício que dá muita flexibilidade e elevação ao pensamento. É o seguinte: coloca-se uma tese, formulando-a claramente. Depois, opõe-se a ela sua antítese, formulada com a mesma precisão. Em seguida, por reflexão cuidadosa, é preciso ampliar o problema ou elevar-se acima dele, até que se encontre a síntese que una os dois contrários em uma idéia mais vasta, mais alta e mais abrangedora.

Muitos outros exercícios do mesmo tipo podem ser feitos; alguns têm um efeito benéfico sobre o caráter e têm assim uma dupla vantagem: a de educar o mental e a de estabelecer um controle sobre os sentimentos e suas conseqüências. Por exemplo, não se deve nunca permitir a seu mental julgar coisas e pessoas; porque o mental não é um instrumento de conhecimento; é impossível para ele encontrar o conhecimento, mas ele deve ser movido pelo conhecimento. O conhecimento pertence a um domínio muito mais elevado que o da mentalidade humana, bem acima da regar das idéias puras. O mental deve estar silencioso e atento, para receber o conhecimento do alto e para manifestá-lo; pois ele é um instrumento de formação, de organização e de ação; e é nestas funções que ele atinge seu valor pleno e sua real utilidade.


Um outro hábito que pode ser muito proveitoso para o progresso da consciência consiste - quando se está em desacordo com alguém sobre um assunto qualquer, uma decisão a tomar, um ato a cumprir - em nunca ficar fechado em sua própria concepção, seu próprio ponto de vista. Ao contrário, é preciso esforçar-se para compreender o ponto de vista do outro, colocar-se em seu lugar e, em vez de discutir ou mesmo brigar, é preciso encontrar a solução que possa satisfazer razoavelmente as duas partes: há sempre uma para pessoas de boa vontade.

É aqui que deve ser mencionada a disciplina do vital. O ser vital em nós é a sede dos impulsos e dos desejos, do entusiasmo e da violência, da energia dinâmica e das depressões desesperadas, das paixões e das revoltas. Ele pode pôr tudo em movimento, construir e realizar; mas pode também destruir e estragar tudo. Assim, talvez, no ser humano, ele é a parte mais difícil de disciplinar. É um trabalho de longo fôlego e de grande paciência, que exige uma sinceridade perfeita, pois sem sinceridade desde os primeiros passos nós nos iludiremos, e toda tentativa de progresso será vã. Com a colaboração do vital nenhuma realização parece impossível, nenhuma transformação impraticável. Mas a dificuldade é obter esta colaboração constante. O vital é um bom trabalhador, mas na maioria das vezes procura sua própria satisfação. Quando ela lhe é recusada totalmente ou mesmo parcialmente ele fica perturbado, mal-humorado e faz greve; a energia desaparece mais ou menos completamente e deixa em seu lugar repugnância por coisas e por pessoas, desencorajamento ou revolta, depressão e descontentamento. Nesses momentos é bom ficar quieto e recusar-se a agir; pois são os momentos em que se faz besteiras e onde em alguns instantes pode-se destruir ou pôr abaixo meses de esforços regulares e o progresso que resulta deles. Estas crises são menos duráveis e menos perigosas no caso daqueles que estabeleceram suficientemente o contato com seu ser psíquico, assim mantendo viva em si a chama da aspiração e a consciência do ideal a realizar. Com a ajuda desta consciência, eles podem lidar com seu vital como se lida com uma criança revoltada, pacientemente e com perseverança, mostrando-lhe a verdade e a luz, esforçando-se para convence-lo e acordar nele a boa vontade que por um momento esteve velada. Graças a esta paciente intervenção, cada crise pode ser mudada em um novo progresso, em um passo a mais era direção ao objetivo. Os progressos podem ser lentos, as recaídas podem ser freqüentes, mas mantendo uma vontade corajosa é certo triunfar um dia e ver todas as dificuldades se dissolverem e desaparecerem diante da irradiação da consciência da verdade.

Finalmente, é preciso, por uma educação física racional e que vê claramente, tornar nosso corpo forte e flexível o suficiente para que ele se torne no mundo material o instrumento apropriado da força de verdade que quer se exprimir através de nós.

De fato, o corpo não deve reger; ele deve obedecer; e por sua própria natureza, ele é um servidor dócil e fiel. Infelizmente, ele raramente tem a capacidade de discernimento necessária em relação a seus mestres, a mente e o vital. Obedece-lhes cegamente, em grande detrimento de seu próprio bem-estar - O mental com seus dogmas e seus princípios rígidos e arbitrários, o vital com suas paixões, seus excessos e extravasamentos, apressaram-se em destruir o equilíbrio natural do corpo e criar nele os cansaços, as exaustões e as doenças. E preciso tira-lo desta tirania, e isto só pode ser feito pela união constante com o centro psíquico do ser. O corpo tem uma notável capacidade de adaptação e resistência. Ele está apto a fazer bem mais coisas do que geralmente se pensa. Se, em vez dos mestres ignorantes e despóticos que o governam, ele for regido pela verdade central do ser, ficaremos maravilhados com aquilo de que ele é capaz. Calmo e tranqüilo, forte e equilibrado, ele poderá a cada minuto produzir o esforço que lhe for exigido, pois terá aprendido a encontrar o repouso na ação, e a recuperar, pelo contato com as forças universais, as energias gastas útil e conscientemente. Nesta vida equilibrada e sadia, uma nova harmonia se manifestará no corpo, refletindo a harmonia das regiões superiores, que dará a ele a perfeição das proporções e a beleza ideal das formas. E esta harmonia será progressiva, pois a verdade do ser nunca é estática; ela é o perpétuo desdobramento de uma perfeição crescente, cada vez mais total e abrangedora. Assim que o corpo tiver aprendido a seguir este movimento de harmonia progressiva, ser-lhe-à permitido, através de uma transformação ininterrupta, escapar à necessidade da desintegração e da destruição. Assim a irrevogável lei da morte não mais terá razão de existir.

Quando tivermos atingido este grau de perfeição que é nosso objetivo, perceberemos que a verdade que procuramos é constituída de quatro aspectos principais: o amor, o conhecimento, o poder e a beleza. Estes quatro atributos da verdade se expressarão espontaneamente em nosso ser. O psíquico será o veículo do amor puro e verdadeiro, o mental o do conhecimento infalível, o vital manifestará o poder e a força invencíveis e o corpo será a expressão de uma beleza e de uma harmonia perfeitas.


domingo, 2 de agosto de 2009

EDUCAÇÃO - UM GUIA PARA O CONHECIMENTO E O DESENVOLVIMENTO INTEGRAL DE NOSSO SER






NOTA INTRODUTÓRIA
EDUCAÇÃO é uma série progressiva de artigos, uma das poucas coisas que a Mãe formulou escrevendo. Neles expõe e clareia, numa linguagem simples, aspectos fundamentais da educação, em toda sua amplitude e profundidade, pondo cada um deles em correspondência imediata a dimensões e realidades constituintes do ser humano. Os artigos se originam de uma consciência escrupulosa, de um poder incomum de percepção e apreensão, sempre avançando até o cerne de cada problema e mostrando-o em sua essência, elucidando ao mesmo tempo detalhes, até sutis minúcias, e, no entanto, jamais perdendo a visão da unidade, do todo; e onde aponta deficiências, fraquezas, deformações, não se demora na franqueza detectora: logo dá o valor real, a figura original, a verdade da coisa em questão, ajudando a encontrar a resposta, a confiança que protege, a energia para ordem e construção, e tudo respira e irradia a certeza inabalável de que é para a Luz, a Plenitude, a União e a Verdade, que o homem, que nós, com o mais autêntico direito e dever, estamos caminhando.
A Mãe escreveu pouco. A maior parte de seu tempo era tomado pelo viver, pelo dar, pelo ser. Isto em todos os sentidos, abarcando e realizando em sua vida tremendamente complexa os
mais diferentes graus e níveis, estendendo-se do físico-instintivo até o espiritual-transcendental, incluindo e mesmo pondo em destaque o plano humano-intelectual. Durante muitas décadas – quase meio século - orientou e liderou a comunidade de Sri Aurobindo Ashram, assumindo todo tipo de problema: alimentação de bebês, exercícios físicos para idosos, encenação de peças de teatro, ensino de eletrônica, simbologia das cores, construção de casas, compra de máquinas, cultivo de verduras, planejamento urbanístico, a doutrina budista, perguntas sobre a origem da alma, o sentido da morte, a evolução do mundo, higiene do corpo, cozinha sadia, poesia, jardinagem, dança, tecelagem, fabricação de móveis e perfumes, técnicas para absorção da energia universal, contos para crianças, etc., etc.
Pode-se dizer que provavelmente não houve assunto da vida humana que não tivesse chegado até a Mãe, solicitando participação, ajuda, orientação, realização. E ela, com base em uma grande humanidade e humildade, e sustentada em seu viver a guiada por sua exclusiva entrega e incondicional obediência a poderes de consciência e amor supra-humanos, supramentais, divinos; respondeu a tudo, e uniu e fez crescer tudo. É esta força, esta consciência, este amor, este poder de união que nestes artigos se expressam e se colocam com grande simplicidade diante de nós. E a nós, diante disso, cabe uma só atitude: receber e agradecer.

REFLEXÃO PRELIMINAR
Há poucos meses conversei com estudantes de dança sobre a seguinte anotação de Franz Kafka: Pode-se perfeitamente admitir que a maravilha da vida, em toda sua abundância, esteja à disposição de cada um e sempre, porém oculta, na profundidade, invisível, bem longe. Mas ela existe lá, sem inimizade, sem estar surda, sem resistência. Chamando-a pelo nome certo, ela então virá.2 Perguntei a cada um o que para ele significava: a maravilha da vida. E logo a primeira resposta, de uma menina, foi: A maravilha da vida é poder ter um objetivo - não qualquer um, não qualquer coisinha, mas algo realmente válido, algo maior - e poder lutar por esse objetivo, lutar para alcançá-lo. E uma outra estudante disse: É a própria vida, quer dizer, a maravilha da vida é poder viver, ter esta existência; e perguntada se podia dizer algo mais, ela, colocando as mãos no peito, acrescentou: é eu sentir a chama acesa em mim, em minha vida, a chama que me faz ver o bom, que me faz confiar, ir adiante.
Logo a primeira resposta é como um intuitivo eco precedendo as palavras da Mãe que abrem este livro: Uma vida sem objetivo é uma vida sem alegria. Tenham todos um objetivo. Mas não se esqueçam que da qualidade de seu objetivo vai depender a qualidade de sua vida... Estas palavras são para nós de real valor - afirmam-nos em nossa direção. Sempre sentimos que o que devemos ao ser em desenvolvimento não é apenas dar liberdade e, em acréscimo (ou em proporção igual ou até maior, como é ainda muito o caso), fornecer um panorama e uma explicação de mundo convencionados, e possibilitar ao indivíduo ainda, eventualmente – como uma ajuda para a formação da personalidade – oportunidades e meios para externamente experimentar e pesquisar, e desta maneira conhecer, denominar um certo número de componentes de seu ser e identificar-se com eles. Achamos que educação seja mais. Achamos que a tarefa colocada para o educando pela atual educação – a tarefa de dever realizar, ao lado do livre crescimento subjetivo, uma formação-de-si e um conhecimento do mundo no nível da consciência coletiva comum - seja em si contraditório e, antes de tudo, insuficiente, por não atingir o ser em sua particularidade nem tampouco em sua totalidade; é necessário que ele busque e defina como um eixo para seu existir e evoluir, um sentido, um objetivo que não seja uma submissão a ideais-padrão universais, nem uma simples adaptação às perspectivas de vida estabelecidas e propagadas pela presente sociedade, e nem um fruto de solitárias e soltas imaginações, mas um objetivo fundado no que há de mais claro, mais genuíno, mais real na pessoa. E feito isto, o crescer não termina aqui, ele se estende para adiante: o indivíduo - ultrapassando o procurar e definir – deve começar a viver o objetivo escolhido. Para isto é indispensével que haja um conhecimento de si o suficiente fundo, corajoso e abrangedor para poder exceder a concentração na realidade subjetiva individual levando à compreensão e visão de que a existência do homem não tem fim em sua própria pessoa e esfera particular:
rompendo – perceptível ou imperceptivelmente - a todo momento esta esfera e seu ambiente imediato, ela se eterna e se irradia para dentro de âmbitos cada vez mais extensos, alcançando e influenciando dimensões e planos que a consciência externa não registra. Por outro lado é essencial que despertemos para o conhecimento de que o núcleo e a raiz de nossos poderes estão em nós mesmos. Não em nossas capacidades físico-vitais ou mental-racionais (estas têm fundamentalmente função instrumental), mas dentro de nós, na região das vivências não-exteriores, em camadas ocultas e ainda ignoradas ou em parte mesmo rejeitadas por nós. E no entanto é desta interioridade que nos vem o saber do que é puro, do que é sincero, e o que deve ser feito. Sem que tenhamos consciência direta disso, abarcamos dentro de nós uma infinidade – e somos capazes de tornar esta grandeza uma intensidade de vida concreta, um movimento palpável existencial: uma real força, um fato, um crescimento emanando-se para dentro do mundo.
Educar, podemos dizer, significa ajudar a acordar, ajudar a encontrar no próprio ser o ímpeto, a saudade, a vontade de movimentar-se e buscar e descobrir, de crescer, de progredir. E educar significa também aprender a lutar, aprender a intensificar a existência e a cumpri-la com decisão e consciência. Educar, basicamente, é ajudar a assumir a vida; é levar o ser a procurar e a aspirar à verdade, a sentir e chamar a luz e a força encobertas nele mesmo; fazê-lo perceber a grande possibilidade que a vida é, o que com ela recebemos, e aprender, conscientemente, a querê-la, vivê-la, dá-la.

Há duas só regiões onde procurar, e assim se coloca no princípio do caminho de busca a necessidade de uma primeira escolha, uma alternativa: posso procurar fora de mim, ou, em mim. Será que fora de mim - nas coisas e pessoas e acontecimentos, no mundo que integro e que me cinge - eu acho o que ainda não sinto e sei como meu, ainda não percebo como real em mim? De fato, é fora de mim que há mil movimentos, valores, sugestões e informações, forças e elementos, complementares e contraditórios, e especialmente enquanto pequeno eu vivo do receber: estou numa dependência praticamente absoluta daquilo que compõe meu imediato redor - é de lá, é do fora que vem o que me alimenta vem o que me abraça, o que me penetra, me constrói e deforma, assusta e alegra e, através das múltiplas experiências, me faz crescer. Mas existe - mesmo nesta dependência tão inteira - algo dentro de mim que atua por si, algo profundamente meu, algo em meu interior que, de início, me caracteriza e cunha, que faz minhas reações e respostas e também minhas necessidades e exigências serem particulares, típicas, distintas, individuais. E, à medida que vou crescendo, aquilo que há de mau próprio em mim, aquilo que me destina a ser um eu introcável, uma pessoa singular e um instrumento executor de uma determinação e missão únicas apronta-se cada vez mais para se expressar e manifestar-se e conduzir minha vida; e ao mesmo tempo recebo um número cada vez maior de influências de fora, influências cada vez mau diversas e mais absorventes, correspondendo a minha crescente necessidade de expansão e de alimento percepção existenciais. O modo em que as coisas de fora se colocam é forte e quase inevitável, é antes uma invasão e imposição do que uma aproximação, e são raras as vezes em que se estabelece uma real concordância mútua ou uma vibração idêntica entre mim e aquilo que vem, e menos freqüentemente ainda existe a possibilidade de livre escolha; o que cresce dentro de mim, por sua vez, é tão novo, tão fresco, tão tenro e – em contrário às coisas de fora – ainda imensamente mutável e assim pouco palpável tão pouco direto que um dedicado e consciente movimento de proteção e busca torna-se urgente: silêncios para escutar e perceber, um renovado e sempre mais inteiro ir para dentro, um viver dentro: eu preciso saber o que, no cerne, me constitui o que me faz existir, o que sou verdadeiramente eu.
Quando ainda pequenos todos nós temos, bem naturalmente, essa necessidade de ir para dentro buscando (uns com mais força, outros com menos) e lá sempre encontramos maravilhas, tesouros, coisas que nos deliciam e às vezes também nos assustam, mas sempre fascinando-nos e enchendo-nos – tornamo-nos identificados, ficamos encantados, transformados, e trazemos nossas riquezas para a superfície. Porém a atualidade que nos cerca é diferente e raramente sabe responder adequadamente ao que oferecemos e perguntamos e queremos, e antes não ouve, ou corta ou até destrói, ou interpreta erroneamente, ou, simplesmente, diminui e banaliza, ou indiferentemente tolera, o que nos é imensamente caro e importante. Assim, em geral, perdemos o estimulo, desaprendemos a irmos para dentro e a sermos psiquicamente despertos e espontâneos – engrossamos e endurecemos, adaptando-nos ao poderoso mundo exterior. Mais tarde, na adolescência, há normalmente um outro impulso de busca e entusiasmo, levando o ser a uma renovada abertura às dimensões interiores, e então acordamos mais uma vez entregamo-nos ao que é belo, ao que emociona, àquilo em que sentimos alguma força e grandeza. E possivelmente isto nos faz abrir-nos à arte, ou nos dedicamos a uma religiosidade intensa, identificamo-nos com um idealismo político, humanitário ou outro, ou ainda com alguma coisa diferente, maior do que nós. Mas depois esses movimentos tendem a se perder, pois a sinceridade que encontramos é pouca, pequenos são a compreensão e o esclarecimento que recebemos – são bem poucos os que nos respondem, que afirmam aquilo que estamos sentindo e querendo colocar em nossa existência como um componente real. Finalmente, no lutar com o mundo exterior-adulto e com a inevitável adaptação a ele, temos que colocar em planos cada vez mais relegados nossa procura da força e da luz que poderiam indicar fontes autênticas da vida, lembrar seu sentido e âmago, sua maravilha. Então parece que o "livre crescer e progredir”, como se poderia denominar uma das projeções destacadas da educação de nossa época, não é compreendido tanto como um fundamento e potencial dinâmico para uma realidade vivencial plena e elevada, mas muito mais apenas como um novo princípio e método educacional experimental a ser aplicado.
Sri Aurobindo constatou há seis decênios o domínio e peso do anual mundo exterior sobre nós: carregamos certamente um peso terrível de exigência, regra e lei externas, e nossa necessidade de auto-expressão, do desenvolvimento de nossa pessoa verdadeira, nossa alma real, nossa lei-de-natureza característica mais íntima na vida, recebe interferências era cada um de seus movimentos, é impedida, é forçada para fora de seu curso, é-lhe dada uma chance e extensão bem pobres através de influências ambientes. Vida, Estado, sociedade, família, todos os poderes que nos rodeiam parecem estar aliados para colocarem seu jugo sobre nosso espírito, para compelir-nos para dentro de seus moldes e impor sobre nós seu interesse mecânico e sua rude conveniência imediata. Tornamo-nos partes de uma máquina; não nos é permitido, ou dificilmente nos é permitido sermos no sentido verdadeiro, manusya, purusa, almas, mentes, filhos livres do espírito, equipados com os poderes de desenvolver a perfeição característica mais alta de nosso ser e fazer dela nosso meio de serviço à espécie. Parece realmente que não somos o que nós mesmos fazemos de nós, mas o que é feito de nós.3 Mas Sri Aurobindo não se satisfaz com uma simples constatação. Deduz desta situação existencial nossa uma exigência e tarefa a ser colocada para a educação: A educação da criança deveria ser um despertar e levar à realização tudo o que é melhor, mais poderoso, mais intimo e vivo em sua natureza.4 E com clareza absoluta ele vê e diz que nosso crescimento é expressamente individual, e que a educação não termina com a infância ou a adolescência, mas se estende para além, abrangendo a vida toda: O molde dentro do qual a ação e o desenvolvimento do homem deveriam ser fundidos é aquele de sua qualidade e poder inatos. Ele tem que adquirir coisas novas, mas ele as adquirirá da melhor maneira, mais vitalmente, com base em seu próprio tipo desenvolvido e em sua força original. E assim também as funções de um homem deveriam ser determinadas por sua tendência, talento e capacidades naturais. O indivíduo que se desenvolve livremente desta maneira será uma alma e uma mente vivas e terá um poder muito maior para o serviço à espécie.5
manusya - um homem, um ser humano (da raiz do verbo sânscrito man - pensar)
purusa - Alma, a Pessoa espiritual; o Si ou Ser consciente que por sua presença e seu consentimento mantém as operações da Natureza.

Com uma idêntica profundeza e nitidez, a Mãe vê a necessidade de o homem simultaneamente desenvolver sua particularidade e servir ao todo – o que significa a existência simultânea, a fusão de movimento individual e movimento coletivo, de diversidade e unidade – e que viver esta simultaneidade em uma harmonia crescentemente total é a própria tarefa e realização da vida humana, e o objetivo de nosso esforço para a perfeição: ...todos são um, tudo é um em sua origem, mas cada coisa, cada elemento, cada ser tem como missão revelar uma parte desta unidade a ela mesma, e é esta particularidade que deve ser desenvolvida em cada um, despertando ao mesmo tempo o sentido da unidade original. É isto que significa trabalhar para a unidade na diversidade. E a perfeição nesta diversidade está em cada um ser perfeitamente o que ele deve ser.6
Formulou-se com isto uma direção que aponta o objetivo essencial e a conseqüente tarefa da educação, a realização simultâneo de dois movimentos interligados: de um lado, o ajudar o ser a encontrar sua lei de crescimento característica e missão central e caminho, e a crescer de conformidade com eles; junto com isso, o fazê-lo ver e com força sentir a unidade que tudo forma, e como cada um de nós, integrando esta unidade, é um de seus múltiplos elementos, minúsculo em relação à imensidade do todo e no entanto indispensável para seu existir: pois a grandeza e o sentido e o poder complexos da unidade se originam justamente de sua constituição única, unindo uma infinidade de elementos característica e individualmente distintos entre si, entes não-estandartizados e não-massificados.
Vemos que para cada indivíduo coloca-se como trabalho primordial o descobrir-se a si mesmo, o concentrar-se na incontestável realidade das vivências interiores, o querer o movimento para dentro e o intensificá-lo, e a prontidão de silenciosamente escutar e, no íntimo, receber e saber. Só através disto pode cada um chegar a um conhecer-se mais total, a um ter-se, e ao afirmar o existir de dimensões outras - só através disto poderemos ver a necessidade de nos abrir a um além e de buscar a participação em uma vida maior, uma existência não fechada em torno do eu pessoal, sentindo com uma nitidez cada vez mais aguda a futilidade do predominante estar voltado para o bem e os males da própria pessoa. Pois cada um deve achar seu próprio lugar, o lugar que só ele pode ocupar no concerto geral, e ele deve dar-se inteiramente a isto, não esquecendo que está tocando apenas uma nota na simonia terrestre, e, no entanto, sua nota é indispensável à harmonia do todo, e seu valor depende de sua justeza.7
É à visão disto que a educação deve levar o educando - é a necessidade de construir a nossa unidade que deve vibrar na consciência e na vontade do educador, impulsionando e determinando sua ação. É assim que a base para um renascer pode ser colocada, um renascer da vida humana para fora de suas barreiras enrijecidas e armadas, para dentro de um novo grau e um novo sentido, tornando-se o homem outra vez criança, vivo e inteiro, novamente – e nascerá com a felicidade de poder evoluir e ser e agir.
Salvador, janeiro de 1974
rolf gelewski